Processo de transformar texto em cordel na literatura popular brasileira

Do Texto ao Cordel: como transformar histórias em poesia popular

Introdução

Tudo quanto há na vida que sonhamos ter ou realizar exige, antes de tudo, que estejamos certos de que amamos aquilo que desejamos fazer. Quando ainda estamos distantes de dominar determinado conhecimento ou talento, os desafios tornam-se inevitáveis.

Basta imaginar um bebê dando seus primeiros passos. Ao iniciar sua caminhada ele tropeça, cai e parece que tudo conspira para interromper sua tentativa. Ainda assim levanta-se novamente e continua tentando. Se ao cair resolvesse desistir, ficaria apenas lamentando que não pode, que não consegue e que jamais conseguirá caminhar.

Na vida acontece da mesma maneira. Quando não existe verdadeiro amor pelos projetos que desejamos realizar, basta o primeiro choque com nossas limitações para que sejamos travados.


A importância da humildade no aprendizado

Em minha caminhada com o cordel não foi diferente. Em certa ocasião meu trabalho foi desprezado publicamente diante de várias pessoas durante uma reunião. Aquela experiência foi uma grande humilhação.

Lembro-me então das palavras de Jesus Christ registradas no Evangelho de Mateus:
“Quem a si mesmo se exaltar será humilhado, e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.” (Mt 23:12)

Aquela situação, mesmo dolorosa, tornou-se para mim um alerta. Foi um despertar para compreender que sonhos não se constroem apenas com desejo, mas com aprendizado, disciplina e humildade para reconhecer nossas limitações.

Se você puder evitar passar por uma humilhação semelhante, melhor ainda. Mas jamais fuja de um gesto essencial: humilhar-se a si mesmo no sentido de reconhecer o que ainda precisa aprender.


Como nasceu meu primeiro cordel

Depois dessa experiência decidi buscar conhecimento. No início da aprendizagem não apresentei progresso visível. Havia dedicação, mas ainda nenhum sinal claro de crescimento na habilidade de escrever rimas.

Meu primeiro cordel chamou-se “O Mistério da Pedra Mágica”. Naquela época enfrentei um problema muito comum entre iniciantes: a famosa “falta de inspiração”.

Para superar essa dificuldade recorri a uma fonte de leitura. Adquiri o livro Conta Outra, de João Soares da Fonseca. Nesse livro havia uma narrativa chamada “A Sopa de Pedra”. Resolvi adaptar aquela história para a literatura de cordel.

Para minha surpresa o trabalho recebeu muitos elogios, embora também algumas observações. Mesmo assim percebi que havia dado um passo importante em meu aprendizado.


Do texto narrativo ao cordel

Algum tempo depois, já com algumas conquistas através do cordel, surgiu em mim um novo desafio. Após assistir a um filme sobre Sansão, decidi escrever um cordel sobre esse personagem.

Contudo resolvi não utilizar o filme como fonte principal. Preferi recorrer diretamente à Bíblia, especialmente ao relato encontrado no Livro dos Juízes.

Assim nasceu o cordel “Sansão, o Herói Imortal Defensor dos Hebreus”.

A narrativa começa com a visita do anjo à mãe de Sansão, anunciando que ela, apesar de estéril, seria agraciada com o dom da maternidade. A partir desse episódio iniciei toda a construção poética da história.


A emoção das primeiras estrofes

Meu objetivo era transformar versículo por versículo em uma composição rimada. No começo foi um trabalho difícil. Ainda assim lembro-me de que, ao ler as primeiras vinte estrofes, fiquei profundamente emocionado. Tive vontade de chorar.

No dia seguinte continuei escrevendo.

Essa experiência mostrou-me algo importante: muitas histórias que estão presas em textos formais ou antigos podem ganhar nova vida quando são transformadas em poesia popular.


O papel do cordel: tornar o conhecimento acessível

Quando alguém transforma um livro ou texto — muitas vezes marcado por linguagem antiga ou rebuscada — em poesia popular, está contribuindo para tornar aquele conteúdo acessível ao público comum.

O cordel transforma a narrativa em algo:

  • alegre
  • rimado
  • cadenciado
  • informativo
  • agradável de ouvir.

Assim o ouvinte sente vontade de acompanhar a história até o final.


O método para transformar texto em cordel

Oração, rima e métrica não devem ser vistos como obstáculos. Pelo contrário: são ferramentas que ajudam a construir o verso.

Um bom exercício para iniciantes é o seguinte:

  1. Escolha um pequeno texto ou narrativa.
  2. Tente transformar a primeira frase em um verso com sete sílabas poéticas.
  3. Faça o mesmo com o verso seguinte.
  4. Continue até formar uma sextilha.

Essa métrica de sete sílabas é conhecida como redondilha maior, muito utilizada na literatura de cordel.

Sempre que estiver compondo as linhas pares — segunda, quarta e sexta — pense em palavras que possam rimar entre si.


Aprender com os próprios erros

Se ao terminar sua composição você não gostar do resultado, não a descarte. Aquilo que você escreveu servirá como ferramenta de aprendizado.

Mesmo que futuramente você não utilize mais aquele exercício, ele será um parâmetro para avaliar seu progresso, reconhecer seus acertos e corrigir seus erros.

O importante é não desanimar.

Continue caminhando, mesmo que às vezes pareça avançar de maneira incerta. Com humildade para aprender e perseverança para continuar, o sonho de escrever seus próprios cordéis certamente poderá se realizar.

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