Aponto aqui quatro enganos que ainda persistem em torno da literatura de cordel, os quais passam, muitas vezes, despercebidos por quem ouve, lê e acredita piamente que assim seja.
Confundir o folheto com o gênero literário
Foquei este tema pelo motivo de que hoje claramente aqueles que trilham dando os seus primeiros passos no cordel estão valorizando mais o superficial do que mesmo o fundamental, cometendo erros permanentemente que comprometem o alicerce as colunas e a composição da obra para priorizar, capa, cor, tamanho, formato, papel e etc.
Em suma essas normas são fáceis de serem postas em prática, fazendo com que o iniciante na poesia seja propenso a deixar de lado as cláusulas que necessitam de serem obedecidas. Porém não quero com isso desencorajá-lo, antes venho motivá-lo a seguir de modo firme e certo, e se por acaso você se encontre tenso por causa dos desafios que estão ligados ao cordel, saiba que você não foi e nem é o primeiro.
Tudo na vida que é ainda desconhecido, porém a gente deseja ardentemente possuir, seguir, usar, entender tem o lado do bônus como também o ônus, e com a poesia cordelina não é diferente, ela traz consigo suas implicações para quem quer dominá-la, que a princípio parece ser complicada, mas que na íntegra quem mergulhar a fundo em seu universo irá perceber como é prazeroso e descomplicado conviver com o cordel.
O primeiro engano é achar que o exemplar de oito ou dezesseis páginas, o conhecido folheto, seja o verdadeiro cordel, e que, ao ser transferido para um livro ou uma plataforma digital, o conteúdo perca sua identidade.
Trata-se de um equívoco grosseiro, pois a essência desse gênero, onde quer que ele se encontre, se estiver cumprindo sua função de comunicar uma mensagem e mantendo sua base estrutural — rima, métrica e narrativa —, será, sem dúvida, poesia de cordel.
Se o cordel é cordel até na boca do poeta enquanto declama, por que deixaria de ser apenas por estar em um meio não tradicional? O que mantém sua identidade é a sua estrutura, e essa jamais deve ser desconsiderada.
2. A ideia de que o cordel deve seguir um padrão físico rígido
O segundo erro, que se confunde com o primeiro, é ainda mais arcaico, pois além de afirmar que o cordel é apenas o folheto, também impõe como esse folheto deve ser.
Surgem então os mitos: o papel deve ser rústico, a impressão apenas em preto, o tamanho específico — como se tudo isso fossem regras obrigatórias, inclusive entre os próprios cordelistas.
A beleza dessa arte está, de fato, em sua apresentação, mas não no estereótipo do folheto, e sim na sua musicalidade, na oralidade que soa como música aos ouvidos. Para isso, é necessário haver medida na composição dos versos, rimas coerentes e uma narrativa clara e objetiva.
Vale lembrar que, em sua época, os romances de cordel eram produzidos com o que havia de melhor disponível nas tipografias.
Os próprios compradores valorizavam essas obras, chegando a colecioná-las e guardá-las em baús, como verdadeiros livros. Assim fazia, por exemplo, minha bisavó paterna, que preservava esses folhetos como um acervo precioso.
Esse cuidado por parte dos leitores revela que o material utilizado na impressão possuía qualidade e importância, contrariando a ideia de que o cordel sempre esteve associado a algo simples ou precário.
3. A falsa obrigatoriedade da xilogravura
A terceira confusão não se limita à estética, mas determina que a capa do cordel deve, obrigatoriamente, ser feita com xilogravura.
É incontestável o valor e o encanto dessa arte, mas transformá-la em exigência é um erro. Mais grave ainda é quando se valoriza a capa em detrimento do conteúdo.
Muitos folhetos antigos, inclusive, utilizavam imagens de revistas, com figuras de atores estrangeiros, enquanto outros sequer possuíam ilustração, apresentando apenas o título em tipografia simples — as chamadas capas cegas.
Isso demonstra que a imagem nunca foi um elemento essencial para a existência do cordel.
4. O preconceito com a linguagem do cordel
A quarta falsa crença está no preconceito com a linguagem utilizada no cordel.
Por apresentar, muitas vezes, uma linguagem mais próxima da fala popular, alguns chegam a considerar esse tipo de escrita inferior, como se seus autores fossem desprovidos de conhecimento.
Outros, mesmo admirando o cordel, acreditam equivocadamente que ele não precisa obedecer às regras gramaticais, associando sua linguagem ao que chamam de “matuta”.
No entanto, essa visão é equivocada.
O cordel pode, sim, utilizar regionalismos e expressões populares, pois isso faz parte de sua identidade cultural. Mas isso não significa desconhecimento da norma da língua.
Pelo contrário: o cordel exige domínio de rima, métrica, ritmo e construção textual.
Mesmo quando se aproxima da oralidade, o cordel respeita a estrutura da língua, mantendo sua mensagem clara, viva e impactante.
A exercida linguagem popular não é erro, mas recurso. Ela aproxima o texto do povo, mantém viva a oralidade e reforça a identidade cultural do cordel.
Conclusão
O cordel não deve ser reduzido a formatos, padrões ou estereótipos. Com isso convido o leitor a que enxergue o cordel com mais profundidade, reconhecendo seu valor como expressão artística e literária.
Sua essência está na sua estrutura poética, na sua musicalidade e na sua capacidade de comunicar.
Tudo o mais — formato, papel, ilustração ou estilo — são apenas possibilidades.
Cordel não é ignorância — é técnica, cultura e expressão do povo.

